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História Familiar
Resumo
Texto sobre as mulheres dependentes de homens. Aquelas que não conseguem respirar sem ter um namorado ou ficante por perto.
Enviada por Giovana Oliveira em 13/04/2009
Fazia calor. Era dezembro de 1998. Dias quentes, tardes calorosas e hálitos fortes. Mesmo com o verão já iniciado, os dias estavam sem cor, nublados e sem vida para *Liz, jovem garota de 25 anos, cabelos longos, óculos de grau, pernas duras e cintura fina. Sem namorado sério (sério= aquilo que mães, avós e tias chamam quando um garoto pede a mão a toda família, inclusive ao Tob, o poodle branco) há pelo menos um ano, estava à procura incessante de um indivíduo que passasse no teste do ILCBQM (Instituo Liz para Certificação de Boa Qualidade Masculina). Quesitos: Ter entre 25 e 40 anos, estatura mediana, peso pena, inteligência notável, conta bancária digna de prestígio, ter uma mãe com setocol, não possuidor de “amiguinhas”, sem desejo por futebol e bebidas, e, zelo pela futura amada. Este padrão “homem de ser” serviria a toda e qualquer criatura que dispusesse de atenção a pequena. Ou seja, ela até esperava por um príncipe encantado, mas ao menor sinal de garoto na parada, cedia para ver se aquele se encaixaria nos padrões de qualidade por ela exigidos. O problema, o xis da questão, é que esta busca acirrada virou obsessão, tornando Liz prisioneira de si mesma.
As amigas *Ticy e *Lucinha, companheiras para todas as horas, achavam um absurdo a insistência de Liz na conquista por um namorado. Toda festa era motivo para usar as roupas mais decotadas, curtas e brilhosas que houvesse naquele guarda roupas cor cáqui de quatro portas. Abusava dos saltos, maquiagem e cores. Várias cores, o que em muitas vezes transformavam-na em pavão, devido o arco íris estampado na silhueta. Antes de sair de casa dizia em tom alto “hoje não saio de lá sem um namorado”, como se fosse uma espécie de ritual. Na festa, partia para a dança do acasalamento. Olhares para um lado, reboladas para o outro, piscadelas e beijos lançados ao ar. Estes meios eram utilizados por Liz na espera de uma “ficada daquelas”. A aproximação não demorava a acontecer. Alguns drinks, uma conversa a toa e os dois pombinhos já estavam em um agarramento frenético, como se o mundo fosse acabar junto à noite. Já passava das cinco da manhã. O mundo não acabou, mas a sensação de final, de vazio dentro dela após uma noite de sexo selvagem eram maior que o salto sob os pés. A essa altura, não sabia se as amigas haviam ido embora, ou se ainda estavam no local. Resolveu chamar um táxi e ir para casa. Essa não era a primeira vez que Liz conhecia um cara, se envolvia com ele e depois, tomava/aplicava um pé na bunda.
Há muito não sabia o que era afeto, o que era carinho, o que era ter alguém que gostasse dela não pelas posições do Kama Sutra que praticava e sim, pelas manias, pelo jeito delicado, pela cara amassada ao acordar. Pela roupa suja após um dia de faxina e pela cara limpa sem maquiagem. Ela como realmente é. Ela sem exposição, sem forçar a barra, sem precisar esfregar o corpo na cara de um homem para que saiba que ela existe. Disso Liz não sabia.
Na roda com amigos, independente do assunto, disparava “preciso de um namorado”. Ao ver as amigas e colegas em companhia dos ficantes ou paqueras, se sentia desconfortável, insegura, e logo se despedia do grupo. Era como se precisasse ter um homem 24 horas por dia a disposição. Ticy e Lucinha estavam cansadas de alertar a amiga sobre essa fúria louca em ter um homem para chamar de namorado. Diziam que isso era falta de amor próprio e que ela deveria esquecer este assunto pelo menos por um tempo, pois os micro-relacionamentos anteriores não tiveram sucesso. Um dia, Ticy gritou enfurecida “Liz, esquece isso! Vá para as festas e repare nas coisas que acontecem, na música que toca, nas pessoas que chegam. Não fique a espreita, procurando homem da mesma maneira que procura pelos óculos que perdeu. Você só vai encontrar alguém quando realmente se gostar e se valorizar.” De nada adiantava. Liz queria beijar todas as bocas, experimentar todos os gostos, sentir todas as texturas. Não se entendia exatamente o porquê de tantas provas, pois todos sabem que não se precisa beijar todos os sapos para saber que é desnecessário. Os anos passaram, Liz envelheceu e ainda não entedia porque não havia encontrado o “homem certo”. No meio do caminho gritou aos ventos sobre a vulnerabilidade e promiscuidade masculina que a incomodava, mas esqueceu-se de todos os amantes que se esforçou para afastar. Não podia fazer cobranças, pois em todo tempo se comportou do mesmo modo que os homens. Dizia que não, mas estava nítida a fraqueza. E o tamanho da submissão já beirava a altura do pescoço.
Pau que nasce torto nunca endireita.
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No Brasil, em 1991, as mulheres com 8 anos ou mais de estudo correspondiam a 35,1% do total de mulheres na faixa etária de 15 a 49 anos (idade reprodutiva). Em 2004, esse percentual alcançou 58,5%. Fonte: IBGE
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